Entrevista Especial: O Rappa


Por Francisco Takashi

Meu Santo Tá Cansado!

Esse é o recado que o Rappa dá logo de cara para todos os fãs que esperaram cinco anos para ouvir o novo trabalho da banda intitulado 7X.

‘Meu Santo Tá Cansado’ é a primeira faixa do CD novo, que traz batidas secas e marcantes, linhas de baixo suaves e ritmadas, bases de guitarra recheadas de efeitos e experimentações sonoras inusitadas. Tudo isso servindo como cenário para a voz inconfundível de Marcelo Falcão, que como sempre profere letras fortes e densas.

Levando em conta o parágrafo acima podemos dizer que todos os elementos que compõem a identidade do Rappa estão presentes neste último trabalho. O disco é marcado por uma levada mais "sossegada", possui um ritmo mais "suave", mas mantêm a atmosfera densa dos antigos trabalhos da banda.

Talvez o disco possa não agradar antigos fãs que esperam uma reedição do brilhante ‘Lado B Lado A’, no entanto 7X mantêm o nível de ‘O Silêncio que Precede o Esporro’. Além disso, o álbum novo chega para provar que mesmo sem ser um dos melhores trabalhos da carreira da banda, ele ainda está acima da média da grande maioria dos discos de rock lançados no Brasil atualmente.

Para quem tinha qualquer receio quanto à qualidade do CD, pelo menos uma coisa dá para ter certeza: o novo trabalho está com a cara do Rappa, e por si só isso já é um ponto positivo. Afinal depois do legado que a banda construiu é muita responsabilidade ser “O Rappa”.

Confira agora a entrevista que Enter Magazine fez com o Rappa sobre o disco 7X:

Enter Magazine: O Rappa ficou cinco anos sem lançar um disco inteiro de músicas inéditas. Como foi para os membros da banda retornar ao estúdio depois de tanto tempo sem gravar material novo?

O Rappa: A composição tem de ser feita de forma espontânea. É um processo de banda de garagem. Leva-se muito som. Todos têm liberdade para tocar o que quiser, no instrumento que desejar. Enfim, no final acaba-se com uma gama de músicas distintas. Tínhamos também um vasto material escrito ajustável a essas levadas de som. É um trabalho artesanal que só acaba na mixagem, até porque gostamos de colocar as experimentações (dub), mesclar os timbres em camadas. Gravamos essas idéias no Estúdio Jimo, as guitarras no Estúdio Caroçu e as coisas que precisavam de uma acústica especial, no AR.


Enter Magazine: As letras do Rappa falam sobre o cotidiano das pessoas por meio de metáforas e mensagens nas entrelinhas de modo que essa característica da banda permanece no disco 7X. Vocês acham que conseguem transmitir com clareza as mensagens das músicas para todos os fãs da banda?

O Rappa: Continuamos tratando dos problemas que fazem parte do cotidiano das pessoas. Principalmente de quem vive nos grandes centros urbanos. Porém, sob outros olhares, já que a situação é mais caótica e exige uma leitura mais profunda. O som está ainda mais denso, assim como as letras. Mas nada é óbvio, é necessário várias audições para se perceber os inúmeros detalhes e nuances.


Enter Magazine: O fã de Rappa experimentado sempre espera um disco com uma sonoridade original e única, visto que é uma característica que sempre destacou a banda no cenário pop/rock brasileiro. Como vocês fazem para manter a originalidade no som da banda depois de tantos anos na estrada?

O Rappa: Qualquer profissional de qualquer área necessita se reciclar. Com música não é diferente. Estar sempre ouvindo coisas diferentes e se aventurar em outros caminhos inusitados. Em um grupo a troca de informação é vital. O respeito ao espaço de cada um tem que rolar.


Enter Magazine: A banda normalmente sempre vive um momento diferente em cada disco e isso se reflete nas melodias e nas letras. O novo álbum é marcado por uma levada mais "sossegada", possui um ritmo mais "suave", mas não necessariamente menos densa. Comentem a fase atual da carreira do Rappa que definiu a cara do CD novo?

O Rappa: Já utilizamos muito os recursos de gravação com computador. Loops, cortes, efeitos. Nesse disco preferimos gravar à moda antiga. Quando queríamos refazer um take, optávamos em refazer todo ele. Fica mais visceral. Utilizamos muitos instrumentos provenientes do álbum Acústico MTV combinados com guitarras experimentais, instrumentos feitos de material reciclado ou enxadas, correntes, bacias. O Falcão utilizou muito timbres com vozes diferentes, ragga muffin. Enfim, é um disco bastante denso. As letras obedecem essa tendência. Pode-se interpretá-las de inúmeras formas. São outros olhares de problemas, infelizmente ainda ocorrentes. População de rua, violência urbana, narcotráfico, falta de oportunidade.


Enter Magazine: Como será o formato do show da turnê nova? Vocês irão manter a idéia dos artistas fazendo grafite durante as apresentações já que isso se tornou uma marca registrada da banda e sempre agradou o público?

O Rappa: O cenário foi montado e idealizado por Zé Carratu, pioneiro do grafismo paulistano com quem trabalhamos em 2003, na turnê de "O Silêncio que precede o esporro". O projeto levou em consideração a grande quantidade de shows que a banda costuma fazer e foi desenvolvido em tecido com bordados e aplicações, fácil de desmontar e levar para qualquer lugar. Pra completar, tem o grafiteiro Ema, que fica nos bastidores desenhando na hora o que é exibido na tela do palco. Ele costuma colocar conteúdos nas telas, deixando as interpretações para o público. Fica bem mais interativo.


Enter Magazine: Muita gente considera o show o ponto forte do Rappa, pois graças a presença de palco a empatia com o público torna-se marcante. Depois de terem feito alguns shows da turnê do 7X, vocês podem dizer como foi a resposta dos fãs em relação às músicas novas?

O Rappa: Ainda é cedo, pois fizemos poucos shows do Sete Vezes. Mas tem rolado uma boa aceitação. As pessoas começam a sugerir outras músicas que ainda não estão no repertório. Aos poucos vamos encontrando o formato ideal. É um show que vai amadurecendo ao longo da turnê.


Enter Magazine: O Rappa sempre foi uma banda que passou mensagens de cunho social por meio de algumas críticas veladas e outras extremamente ácidas. Depois de sete álbuns lançados, como vocês analisam o papel de vocês como formadores de opinião?

O Rappa: É uma grande responsabilidade. A maior contribuição que podemos dar é o livre pensar, poder discutir esses assuntos urgentes. O livre arbítrio. Não é nossa pretensão impor qualquer tipo de verdade absoluta. Apenas retratamos fatos que afligem qualquer cidadão comum.


Enter Magazine: Nesse tempo que vocês passaram na estrada divulgando os discos 'O Silêncio que Precede o Esporro' e o 'Acústico MTV' muito material inédito deve ter sido composto. Como foi o processo de seleção das músicas do disco novo? Muita coisa foi deixada de lado? O que vocês pretendem fazer com o material que não foi incluído no 7X?

O Rappa: Pois é. Quando se tem uma agenda de shows grande, fica mais difícil nos encontrarmos. A turnê do show acústico acabou por se estender mais tempo do que esperávamos. Quase dois anos e meio. Talvez, porque fizemos arranjos completamente novos para músicas já bastante executadas e pusemos canções pouco conhecidas pelo público. Para gravarmos o "Sete Vezes", fizemos mais de 100 bases e levamos um ano no processo todo. Foi um tempo necessário para aproveitarmos ao máximo as idéias do grupo. É um trabalho mais lento, mas que ao final deixa poucas dúvidas. Temos vontade de aproveitar este material que ficou de fora do CD em futuras composições ou disponibilizá-lo na rede, no site. É um material bruto que pode virar trilha de algum vídeo. Às vezes aproveitamos só uma linha de baixo. Há uma enorme variedade de formas de lidar com esses sons.




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